quinta-feira, 22 de julho de 2010

Para refletir sobre a produção de texto: o importante é comunicar...



O Gigolô das palavras - Luís Fernando Veríssimo

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa ! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.
A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

7 comentários:

  1. Belíssimo texto de Verísssimo! Como bom entendedor da língua, o escritor reconhece a importância da norma culta,a qual deve ser valorizada em certas ocasiões, no entanto, ele mostra que, o mais relevante é o ato de se comunicar, ou seja, valorizar as variedades presentes na língua, já que a mesma é dinâmica e plástica e como toda língua viva estar sempre evoluindo. Assim ,mas do que aprender e ensinar as regras gramaticais, devemos valorizar as as diferentes formas de se comunicar de acordo com as diversas situações comunicativas, pois são elas que definem o que é " certo " ou "errado", no ato da comunicação.Para tanto,só precisamos desenvolver nossas competências linguística e sociocomunicativa.

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  2. No texto de Veríssimo encontramos um tema que sempre está presente em nossas vidas que é a comunicação. Comunicar-se é algo indispensável na vida de qualquer ser pensante, nesse sentido devemos sempre respeitar as particularidades de cada pessoa e também buscarmos nos inteirar das regras gramaticais, no entanto, não devemos e nem podemos perder é a essência presente em cada grupo social. Respeitar o diferente é indispensável para que possamos nos encontrar em uma sociedade que o “normal” é se “diferente”.

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  3. O texto é realmente muito interessante Luís fernando Veríssimo nos faz compreender a importância da comunicação.Ele enfatiza a nessecidade de conhecermos as normas cultas da linguagem,no entanto nos faz entender que se ficarmos presos a tais formas podemos perder de vista a riqueza da nossa lingua.

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  4. Em o gigolô das palavras o autor considera que a gramática não é algo tão importante assim para produção de um bom texto. Para ele escrever bem as vezes implica em romper com certas regras gramaticais. Reconhecer a pluralidade de nossa língua, aprender a “ norma culta” e também a “ não culta” já que empregamos diferentes formas de comunicação para cada situação. O importante é construir uma leitura atraente, que prenda o leitor e encarar a língua como uma coisa viva e usá-la com liberdade. Graça

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  5. De acordo com o texto lido de Luiz Fernando Veríssimo, pude analisar que o uso da gramática é importante, porém não é essencial para nossa comunicação.
    Desde os mais velhos o homem já dominava suas formas de linguagem, e com o tempo ele foi evoluindo tanto na linguagem escrita quanto na falada, levando sempre em conta a sua origem. Todos tem direito á comunicação independente de fatores econômicos sociais ou culturais.

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  6. O texto de Luís Fernando Veríssimo relata a importância da comunicação, não desvalorizando o uso da gramática, mas dando ênfase ao ato de se comunicar.
    Nós como educadores devemos aprender e ensinar as regras gramaticais, mas, no entanto temos que respeitar e valorizar as diferentes formas de expressão da nossa diversidade lingüística.

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  7. Só podia ser mesmo Fernando Veríssimo! É mesmo sensacional a forma como ele trata a importância do saber e entender algo. É relevante no texto que a ideia de entender não está apenas na forma gramaticalmente correta e culta e sim, na clareza do que você quis dizer.Também é até engraçada sua opinião acerca da importância da gramática.

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